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Projeto AICare4U aposta em robótica colaborativa para transformar a reabilitação do membro superior

Projeto AICare4U aposta em robótica colaborativa para transformar a reabilitação do membro superior

Este artigo apresenta o trabalho desenvolvido no âmbito do projeto AICare4U, uma iniciativa interna do INESC TEC focada no desenvolvimento de um sistema robótico de reabilitação do membro superior, que pretende detetar, com base em inteligência artificial, movimentos compensatórios e adaptar, em tempo real, a trajetória e a resistência durante os exercícios.

AICare4U: A resposta tecnológica para um problema com dimensão global 

O acidente vascular cerebral (AVC) continua a ser uma das principais causas de morte e incapacidade a nível mundial [1], representando um elevado impacto social e económico. Em Portugal, onde o AVC é a principal causa de morte [2], uma grande parte dos sobreviventes vive com múltiplos tipos de sequelas que comprometem significativamente a realização das atividades do dia-a-dia [3], em particular a incapacidade de usar o braço e a mão. Abrir uma porta, levantar pequenos pesos ou até escrever: tarefas simples que, após um AVC, representam verdadeiros obstáculos. São, portanto, muitos os desafios associados à capacidade de resposta dos sistemas de reabilitação, o que tem impulsionado o desenvolvimento de soluções tecnológicas e robóticas capazes de complementar a terapia convencional. Neste contexto, a reabilitação robótica tem assumido um papel de destaque, permitindo terapias mais intensivas, repetitivas e orientadas para tarefas funcionais, com monitorização objetiva do desempenho e potencial para reabilitação semi-supervisionada. Ensaios clínicos têm vindo a corroborar os benefícios da reabilitação robótica, com alguns estudos a reportarem resultados comparáveis aos obtidos através da terapia convencional, reforçando o potencial destas tecnologias na recuperação funcional dos pacientes [4]. Um dos obstáculos mais comuns no processo de reabilitação é a ocorrência de movimentos compensatórios: estratégias motoras adotadas quando o membro afetado não consegue executar corretamente uma determinada tarefa [5]. Nestes casos, outras partes do corpo são recrutadas para alcançar o objetivo pretendido: a elevação do ombro, a inclinação do tronco, entre outros. Embora permitam a conclusão da tarefa, estas compensações prejudicam a reabilitação a longo prazo, pois reduzem o envolvimento ativo do membro em recuperação [6,7]. É precisamente este problema que o projeto AICare4U quer resolver. Em desenvolvimento no INESC TEC, o projeto aborda uma solução robótica para a reabilitação do membro superior aliada à deteção de movimentos compensatórios baseada em Inteligência Artificial (Figura 1). Para atingir esse fim, combina várias abordagens complementares: um exoesqueleto robótico adaptativo que assiste ou resiste ao movimento do membro superior; um manipulador robótico colaborativo que guia o membro ao longo de trajetórias pré-definidas e intervém quando deteta desvios; um sistema de visão baseado em inteligência artificial que monitoriza o processo terapêutico e deteta a realização de movimentos compensatórios; e um jogo sério [8], uma aplicação interativa que promove uma participação mais ativa dos utilizadores, ajustando a dificuldade ao desempenho de cada utilizador e integrando uma avaliação funcional inspirada na escala clínica de Fugl-Meyer, amplamente utilizada na avaliação motora pós-AVC [9].

Projeto AICare4U aposta em robótica colaborativa para transformar a reabilitação do membro superior
Figura 1. Sistema de reabilitação robótica, incluindo o manipulador e o exoesqueleto.

Reabilitação robótica adaptativa

Exoesqueleto rumo à reabilitação

O exoesqueleto robótico desenvolvido pela equipa do INESC TEC tem dois graus de liberdade para a reabilitação do membro superior, sendo capaz de assistir e resistir aos movimentos de flexão e extensão do cotovelo e de pronação e supinação do antebraço (Figura 2)[10]. O protótipo foi modelado em 3D e impresso em PLA, incorpora barreiras mecânicas e fins de curso que impedem movimentos potencialmente perigosos e um botão de emergência que assegura que a sessão pode ser interrompida de imediato, sempre que necessário.

Modelação 3D do sistema robótico de reabilitação e a sua integração com o manipulador KUKA LBR iiwa 14 R820.
Figura 2. Modelação 3D do sistema robótico de reabilitação e a sua integração com o manipulador KUKA LBR iiwa 14 R820.

O sistema oferece três modos de controlo concebidos para acompanhar a evolução do utilizador ao longo do processo de reabilitação. No modo passivo, o exoesqueleto assume o controlo total do movimento, manipulando o braço do utilizador sem qualquer esforço da sua parte. À medida que a recuperação avança, o modo de assistência ativa entra em cena: o utilizador tenta realizar o movimento de forma autónoma e o dispositivo intervém apenas quando necessário. No nível mais exigente, de resistência ativa, o exoesqueleto aplica uma força contrária ao movimento, tornando o exercício mais desafiante e estimulando o esforço muscular do utilizador. Para garantir que o peso do próprio sistema não distorça os resultados, este modo inclui ainda uma componente de compensação da gravidade. Todo o processo pode ser acompanhado em tempo real por uma interface gráfica intuitiva (Figura 3). Mais informações sobre o desenvolvimento deste exoesqueleto, incluindo um vídeo demonstrativo, podem ser encontradas no artigo original [10].

Os resultados dos testes realizados com participantes saudáveis são encorajadores [11]. O exoesqueleto demonstrou ser capaz de manter os movimentos dentro dos limites de segurança estabelecidos, mesmo sob potência máxima, e de seguir as trajetórias com grande consistência. Os ensaios com 47 voluntários saudáveis reforçaram esta impressão positiva:  o dispositivo obteve pontuações elevadas de usabilidade e atingiu uma média de 4,4 em 5 numa avaliação de conforto e segurança, valores que apontam para uma experiência de utilização cómoda e fiável, um passo promissor para a sua futura aplicação clínica.

Cláudia D. Rocha, André Gonçalves, João F. Martins, Carlos M. Costa, Hélio Mendonça, Manuel F. Silva
INESC TEC – Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência

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