Nos últimos anos, a robótica móvel e autónoma deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade na indústria e nos serviços. E, como todas as tecnologias que vieram para ficar, trouxe consigo não apenas ganhos de produtividade, mas também uma transformação estrutural na forma de pensar a logística, a produção e a própria competitividade económica.
Até há pouco tempo, os sistemas de transporte interno em fábricas e armazéns eram previsíveis e limitados: rebocadores ou empilhadores conduzidos por operadores humanos e, em alguns casos, veículos guiados por fitas magnéticas ou filoguiados (Autonomous Guided Vehicles – AGV), com rotas fixas e pouca adaptabilidade. Hoje, a convergência de novos sensores (na maioria dos casos, LiDAR e sistema de visão por computador), inteligência artificial e redes de comunicações de alto débito e velocidade (por exemplo, o 5G) deu origem a uma nova geração de robots móveis capazes de tomar decisões autónomas em ambientes em constante mudança (Autonomous Mobile Robots – AMR).
E não penso apenas em máquinas que seguem instruções programadas de forma cega: refiro ecossistemas inteligentes, onde robots, máquinas e operadores humanos trabalham como partes interligadas de um sistema inteligente. Estes subsistemas comunicam entre si, detetam obstáculos, replaneiam rotas, priorizam entregas e até ajustam o seu comportamento consoante padrões de procura ou de segurança. O futuro aponta para fábricas e armazéns capazes de se reorganizarem sozinhos, respondendo em minutos a alterações na cadeia de abastecimento. Quem souber explorar esta agilidade estará vários passos à frente no mercado.
Constata-se que as empresas que implementam estas soluções de robótica móvel registam reduções significativas nos tempos de ciclo, aumentam a precisão dos transportes e melhoram a rastreabilidade dos seus fluxos logísticos. Mas o valor real não está apenas na velocidade. Está na capacidade de ajustar a produção e distribuição quase em tempo real, evitando paragens, desperdícios e custos invisíveis. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, estes sistemas não são apenas substitutos de mão-de-obra: são multiplicadores de produtividade, permitindo que as equipas humanas se concentrem em tarefas de maior valor acrescentado, deixando as tarefas repetitivas para as máquinas, cada vez mais inteligentes e autónomas.
No entanto, a transição para uma logística cada vez mais autónoma levanta questões que não podem ser ignoradas. A primeira, e talvez a mais importante, é a requalificação profissional. Quando determinadas tarefas são automatizadas, é essencial facultar ocupações alternativas para os trabalhadores e criar percursos de formação que lhes permitam integrar-se nas novas funções geradas pela própria tecnologia – só assim, eles próprios serão apoiantes da introdução destas novas tecnologias. Outro desafio crítico prende-se com a cibersegurança das instalações. Uma frota de robots móveis interligados através de redes informáticas é também uma rede potencialmente vulnerável a ataques. A proteção contra intrusões digitais deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser um requisito central para garantir a segurança física das pessoas e equipamentos e a continuidade das operações. Por último, surge ainda o dilema ético da autonomia: até que ponto estamos dispostos a delegar decisões operacionais a sistemas que aprendem e se adaptam? A resposta não passa por travar a inovação, mas sim por estabelecer regras claras, sistemas de supervisão e auditorias regulares que assegurem transparência e confiança.
Tendo estas ideias em mente, constata-se que Portugal reúne condições excelentes para assumir um papel relevante nesta revolução que se encontra em curso. Dispomos de diversas instituições de ensino superior com cursos superiores com especializações em robótica e inteligência artificial (IA) de onde saem todos os anos centenas de engenheiros com as qualificações adequadas, de diversos centros de investigação com reconhecida competência em robótica e IA, de startups que já desenvolvem AGV e AMR para aplicações industriais, e de um ecossistema empresarial ágil, capaz de experimentar e adaptar novas soluções com rapidez.
No entanto, para transformar todo este potencial em liderança tecnológica é preciso escala e visão estratégica. Isso implica cooperação entre instituições de ensino superior, centros de investigação e empresas, a que se devem somar políticas públicas de incentivo ao desenvolvimento e adoção de tecnologia de base nacional, de modo a criar projetos de demonstração em larga escala, incentivar a internacionalização e captar investimento estrangeiro.
Mais do que importar tecnologia, sou de opinião que Portugal tem capacidade para exportar soluções integradas e adaptadas a nichos específicos – e esta será, talvez, uma das nossas grandes vantagens. Isto permitirá posicionamo-nos não como seguidores, mas como criadores num mercado global em rápida expansão. Ao desenvolvermos soluções adaptadas a nichos específicos temos vantagem na resolução de problemas de muitas Pequenas e Médias Empresas (PME) que não encontram soluções customizadas às suas necessidades, a preços competitivos, junto dos grandes players mundiais nesta área.
Tal como aconteceu com outras tecnologias, como a eletricidade, a internet ou mesmo a robótica de manipulação, a robótica móvel e autónoma não vai apenas melhorar processos existentes – vai alterar profundamente o modo como concebemos e executamos operações logísticas e industriais. A questão já não é se a vamos adotar, mas com que ambição e em que papel: seremos nós meros importadores e consumidores ou protagonistas desta mudança, exportando posteriormente as tecnologias que desenvolvermos?
Manuel Silva
Professor Coordenador no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP)
Coordenador do Centro de Robótica Industrial e Sistemas Inteligentes do INESC TEC
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