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Robots humanoides: o futuro da indústria e dos serviços

Os robots humanoides de estatura humana chegaram em força e trouxeram consigo uma viragem histórica na forma como a indústria e os serviços irão operar no futuro. A China lidera, os EUA perderam a dianteira e a bela Europa continua adormecida há décadas. Portugal e os restantes países europeus precisam urgentemente de apanhar este comboio, sob pena de perpetuarem um atraso tecnológico e científico difícil de recuperar. Este texto reflete a minha opinião sobre o momento que vivemos e o rumo que se perspetiva para as próximas décadas na robótica industrial e de serviços.

Durante séculos imaginámos máquinas que se parecessem connosco. Em 2025, elas deixaram de ser ficção científica e começaram a disputar maratonas. De 15 a 17 de agosto de 2025, realizaram-se no Pavilhão Ice Ribbon em Pequim, capital da China, os 2025 World Humanoid Robot Games ou mais concretamente, as primeiras olimpíadas “desportivas” de robots humanoides, com a participação de 16 países dos 5 continentes, com mais de 500 robots humanoides, 280 equipas e 26 diferentes competições, num evento que se espera ocorrer anualmente a partir de agora. Algumas dessas competições eram mais desportivas como as provas de atletismo, pugilismo e de futebol; outras competições eram menos desportivas e ligadas mais aos serviços hospitalares e hospitaleiros.

Este evento foi uma notória tentativa de demonstração ao mundo, e principalmente aos EUA, da capacidade e poder atual da China no desenvolvimento de robots humanoides, bem como de estabelecer marcos de pioneirismo em eventos onde demonstrem claramente essa capacidade. Tal já tinha acontecido uns meses antes, em 19 de abril de 2025, quando realizaram a primeira meia-maratona de robots humanoides também na mesma cidade. A abertura destes jogos teve honras de cerimónia idênticas às dos Jogos Olímpicos, com toda a pompa e circunstância, com uma cobertura mediática nacional e internacional representada pelas maiores cadeias de comunicação social do mundo. O show estava montado, os robots eram as vedetas e nós, os participantes e programadores daquelas máquinas, éramos aqueles que permitíamos que o show fosse um sucesso. Tudo correu bem e a China impressionou a sua população, bem como os mais atentos pelo resto do mundo, eu, incluído.

Mas para compreender o impacto deste evento, é essencial olhar para a evolução dos robots humanoides na última década. Sendo da área, tenho acompanhado a evolução dos robots humanoides desde há muito e nunca pensei que iria estar a ver semelhante evolução, em apenas três anos. Sim, pasme-se porque o grande salto foi nestes últimos três anos. Enquanto a Boston Dynamics nos maravilhava com a apresentação do seu modelo Atlas em junho de 2013, presenteando-nos com vídeos do mesmo, tanto na sua evolução como com coreografias fantásticas, percebíamos que o panorama parecia promissor, mas algo longínquo, dado que o seu valor real e preço de mercado nunca eram revelados. Sabíamos que seria algo de milhões. No entanto, coreografia não é autonomia nem inteligência, e não falo de autonomia energética. Essa era a segunda parte deste estado de letargia tecnológica em que vivíamos, sempre na expectativa de ver algo mecanicamente maravilhoso, mas tendo a noção de que não iríamos poder programá-lo tão cedo para tornar aquela máquina autónoma. Era a frustração.

O COVID’19 veio e a frustração acentuou-se, uma vez que todos percebemos da escassez gerada, não só no papel-higiénico, mas principalmente no mundo tecnológico com a falta de produção/entrega de circuitos-integrados. No entanto, este mal veio despertar o mundo para duas situações importantes:

  1. A dependência, principalmente da Europa, na produção exclusivamente chinesa de circuitos-integrados, onde ficamos com uma indústria automóvel quase estagnada devido a isso;
  2. O nascimento ou crescimento de empresas e soluções de robots humanoides, tendo a Tesla apresentado o seu robot humanoide Optimus em 2021, a Figure AI em parceria com a BMW com os Figure 02, o Helix e o Figure 03 entre 2024 e 2025, a Apptronik com o Apollo em 2023 e o novo Atlas elétrico da Boston Dynamics em 2024, todas elas empresas americanas. Já a Sanctuary AI, uma empresa canadiana, lançou o seu Phoenix em 2023. Quanto ao mercado chinês, a lista impressiona:
    1. Xiaomi – CyberOne (2022),
    1. Unitree Robotics – H1 (2023), G1 (2024), R1 (2025),
    1. Fourier Intelligence – GR-1 (2023),
    1. Booster – BR002 (2023) e T1 (2024),
    1. EngineAI Robotics – SE01 e PM01 (2024),
    1. Kepler Robotics – Forerunner K2 (2024),
    1. Deep Robotics – DR01 (2024),
    1. LimX Dynamics – P1 (2023/24), Oli (2025),
    1. UBTECH – Walker S / S2 (2025),
    1. AgiBot – Lingxi X2 / X2-N (2025),
    1. Robot Era – STAR1 (2024) e L7 (2025),
    1. Ant Group – R1 (2025).

Este é apenas um pequeno conjunto de empresas que se tornaram conhecidas através de um marketing agressivo e vídeos impressionantes, com robots a fazer saltos mortais e piruetas para a frente e para trás, em que muitos pensaram ser apenas montagem de vídeo. A realidade mostrou que afinal era verdade, e que estes robots chineses conseguiam mesmo produzir aqueles maravilhosos movimentos. A tecnologia já tinha conseguido chegar a esse ponto. Muitas outras empresas, ainda não conhecidas e fora desta lista, foram nascendo nestes anos mais recentes na China, fizeram a demonstração do seu protótipo no evento e brevemente irão estar no mercado a competir com todas as outras. Esse é o espírito asiático a funcionar, sem entraves nem burocracias a travar essa evolução, coisa essa impensável nesta velha Europa.

Mas onde está toda a minha admiração?

Está essencialmente em três pontos: no preço, na acessibilidade à programação e principalmente na robustez destas novas máquinas que surgiram no mercado chinês, uma vez que as marcas americanas continuam sem preço e forma de as adquirir.

Comecemos pelo preço. Estes robots humanoides, na sua maioria, com estatura até aos 1,5 m, encontram-se abaixo dos 50 k€. Estes valores são extremamente acessíveis tanto à comunidade de Investigação e Desenvolvimento (I&D), como para a indústria e serviços em geral. Em muitos setores onde a falta de mão-de-obra é significativa, estes robots poderão colmatar facilmente essa lacuna. Em termos de custos laborais, esse valor poderá equivaler ao vencimento de um ser humano de um a três anos de salários, dependendo do valor do salário mínimo de cada país. Será um retorno rápido, uma vez que se espera uma grande longevidade destes robots, dependendo do trabalho desempenhado. Podendo trabalhar 24/7, um só robot, pode suprir a lacuna de até três seres humanos em trabalho por turnos, reduzindo ainda mais o tempo de retorno do investimento.

Quanto à acessibilidade da programação dos mesmos, praticamente todas as marcas enunciadas na lista dispõe de API com suporte para linguagens de programação comuns, suporte ao ROS/ROS2, modelos 3D para ambientes de simulação conhecidos como Gazebo, Webots e Isaac SIm da NVidia, preparados para a utilização de soluções atuais de Inteligência Artificial. O grande crescimento de comunidades de I&D nas ferramentas anteriormente referidas é enorme, tanto na academia como na indústria, o que irá permitir a disseminação rápida de soluções para todas as aplicações práticas da vida, seja nos serviços, no apoio social aos mais idosos ou às crianças, no apoio nas áreas da medicina nos hospitais e centros de saúde, entre muitas outras aplicações da sociedade. Também na indústria, a lista de aplicabilidade destes robots humanoides é interminável (incluindo a agricultura).

O último aspeto da minha admiração está na sua robustez. Deixei este para último, pois para mim é o aspeto mais importante. Vi quedas e embates que noutros tempos, saltariam peças e o robot permaneceria morto no chão. Porém, não há perda de peças e a velocidade com que recuperam é espantosa. Em fração de segundos, colocam-se sozinhos de pé e de volta à rotina. O equilíbrio destes robots é fenomenal, mesmo quando empurrados com muita violência. A maneira como caminham ou mesmo quando correm, deixou de ser de uma forma “robotizada” como era no passado. Parecem-se imenso com o caminhar ou a corrida humana.

Percebi também no evento, que finalmente terminou a guerra que sempre existiu na I&D de robótica, principalmente na robótica móvel e autónoma: o jogo do empurra de culpas entre a mecânica, a eletrónica e a programação, a mecatrónica em geral. Dois dos três pilares estão consideravelmente sólidos, a mecânica e a eletrónica, e cabe agora apenas à comunidade de programação, dar a inteligência a estas máquinas de forma adequada, sem poder voltar a dizer que algo não funciona, por problemas mecânicos ou eletrónicos. A fiabilidade e robustez eletromecânica que pude atestar neste evento, mostrou-me que a responsabilidade passou agora para a I&D em Inteligência Artificial (IA), para fazer esta “última milha” e de conseguirmos o ajudante perfeito para o ser humano. Desde a perceção por visão por computador ou outras tecnologias, a locomoção com desvio de obstáculos, a auto-localização e a perceção espacial em mapas pequenos ou vastos, a manipulação fina de objetos ou grosseira no transporte de carga, a interação homem/máquina por meios comuns como o diálogo verbal ou língua gestual, são agora os próximos desafios a serem consolidados, e que já estão a ser trabalhados há muitas décadas. Tal como a eletromecânica atingiu um ponto de robustez que é clara nos robots humanoides atuais, a IA terá também que atingir esse ponto nesta próxima década.

Portugal e a Europa têm imenso trabalho pela frente para recuperar décadas de atraso em várias áreas tecnológicas. Mas ainda há tempo, se soubermos investir na formação, na investigação aplicada e na criação de políticas de inovação que apoiem o desenvolvimento robótico. O comboio já segue, a alta velocidade, e ainda podemos embarcar.

Agostinho Gil Teixeira Lopes (PhD – Intelligent Robotics)
Professor Adjunto – Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP)
Investigador integrado LIACC – The Artificial Intelligence and Computer Science Laboratory