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Termómetros de semicondutores

Termómetros de semicondutores

Uma das facetas dos materiais semicondutores é a dependência das suas características com a temperatura.

Nos aparelhos electrónicos usuais (amplificadores, transmissores, …) esta dependência é quase sempre indesejável e costuma mesmo ser compensada. No entanto, esta dependência das características dos semicondutores pode ser aproveitada vantajosamente na construção de sensores de temperatura. Estes têm a particularidade de possuir uma sensibilidade alta, boa linearidade e grande precisão. Têm, porém, o inconveniente de não suportarem temperaturas elevadas. Os seus intervalos de medição estão compreendidos entre os −50 oC e os 150 oC.

A junção PN como sensor de temperatura

Uma junção semicondutora quando polarizada com uma tensão UD é percorrida por uma corrente ID dada por

equação de uma junção semicondutora

em que:

ID – corrente na junção PN (positiva no sentido direto);

UD – tensão aplicada à junção PN;

I0 – corrente inversa de saturação na junção PN;

η – coeficiente, tal que 1η2;

UT – tensão térmica;

e – carga do eletrão, 1, 602 176 634 × 1019 C;

kB – constante de Boltzmann, 1, 380 649 × 1023 J/K;

T – temperatura absoluta da junção PN.

Esta equação representa a característica típica de um díodo semicondutor e é descrita graficamente na Figura 1.

Característica tensão/corrente de uma junção PN
Figura 1. Característica tensão/corrente de uma junção PN semicondutora real (a) e real em que
as escalas directa e inversa são diferentes (b).

A junção semicondutora é o díodo PN de silício, discreto (η=2), ou integrado num material semicondutor (η=1). Muitas vezes utiliza-se, como junção semicondutora, um transístor NPN ligado como díodo (base e colector ligados entre si), o qual pode apresentar-se como elemento discreto (η=2) ou incluído num circuito integrado (η=1). Para o transístor ligado como díodo, continua a aplicar-se a expressão (1), em que a tensão UD, referida na fórmula, é UBE, dirigida da base (ligada em curto-circuito ao colector) para o emissor.

Observe-se, na Figura 1 (b), que a corrente directa é várias ordens de grandeza superior à corrente inversa de saturação, excepto quando esta entra na zona de disrupção, para valores de tensão superiores, em valor absoluto, à tensão de Zener, UZ.

Na expressão (1), o valor 1 que se subtrai à exponencial, pode ser desprezado quando a junção PN está polarizada directamente e para valores de UD ≳ 0, 4 V, por ser ≫1. Ainda na expressão (1), chama-se a atenção para a variável temperatura. Se, por meio de um circuito exterior, for aplicada à junção PN uma corrente ID constante, quando a temperatura T variar, UD variará na mesma relação, de modo a manter a parcela exponencial constante, já que ID está a ser forçada constante pelo circuito exterior. Tal não é, no entanto, absolutamente correcto, uma vez que a corrente inversa de saturação I0 também depende da temperatura. Dados experimentais permitem concluir que, mesmo assim, a dependência da tensão UD com a temperatura T é linear, dentro de determinados limites de operação, i.e. desde que ID seja mantida constante com a junção PN polarizada diretamente. Esta dependência pode escrever-se como a seguinte relação linear

equação de relação linear

que se representa na Figura 2, para alguns díodos comuns. O coeficiente a tem valores compreendidos entre 3 mV/oC e 1 mV/oC.

Característica tensão/temperatura para alguns díodos comuns.
Figura 2. Característica tensão/temperatura para alguns díodos comuns.

Uma forma de reduzir na característica UD(T) a sua dependência de I0, consiste em utilizar, não uma junção, mas duas junções iguais, feitas atravessar por correntes de polarização diferentes, e efectuar a medição diferencial Uo, como se indica na Figura 3, em que se utilizam dois transístores iguais, cada um deles ligado como díodo.

Utilização de duas junções como sensor de temperatura.
Figura 3. Utilização de duas junções como sensor de temperatura.

Fazendo a análise do circuito: uma vez que cada junção se encontra com polarização directa, que as junções são iguais e que numa delas é forçada uma corrente I1 e na outra uma corrente I2, pode escrever-se (desprezando o valor 1 na equação (1), pela razão já apresentada)

equação de análise do circuito

Notando que U0(T)=UBE1(T)−UBE2(T) e substituindo nesta as equações (3), após simplificação, resulta

equação após simplificação

em que k é constante.

Obtém-se, desta forma, um valor de tensão Uo proporcional à temperatura T, que terá, ainda, de ser amplificado por um amplificador diferencial, para normalização do sinal.

Sensores de temperatura em circuito integrado

O sensor de temperatura em circuito integrado é um dispositivo electrónico para medida de temperatura, utilizando semicondutores. O seu princípio de funcionamento baseia-se no que acaba de se expor: os circuitos integrados utilizam, normalmente, dois transístores ligados como díodos e exploram a diferença de tensões entre a base e o emissor.

Na Figura 4 mostra-se o esquema de um sensor de temperatura em circuito integrado, o Analog Devices AD590®. Os transístores Q8 e Q11 são os que originam, cada um deles, uma tensão UBE, cuja diferença é proporcional à temperatura a que se encontra o circuito.

Rui Vilela Dionísio
Departamento de Engenharia de Sistemas Industriais e Recursos Naturais
Escola Superior de Tecnologia de Setúbal do Instituto Politécnico de Setúbal

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